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riscos_e_rabiscos

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Medo. (dia 25)

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Um dos medos que tenho é do escuro. Sempre tive. Mas não tenho medo da noite. O escuro de que tenho medo é daquele em que nós estamos dentro de casa e não vemos um palmo à frente do nariz. Faz-me confusão não perceber o que se passa à minha volta, e nem consigo dormir de persianas cerradas. Preciso mesmo de um raio de luz para me conseguir orientar.

Tenham Medo, Muito Medo.

 

 

 

E assim foi! Cumpriu-se o desejo, a histeria colectiva e até os terrores nocturnos. E estavam acompanhados e vigiados e ninguém disse nada. Depois quem as leva, são sempre os mesmos!

 

Então vamos lá descodificar o que está dito acima: um santinho de um menino do meu convento resolveu levar uma pen wireless para a escola. Depois das aulas, foram para uma sala onde podem ver filmes, jogar jogos e fazer brincadeiras e onde está presente uma auxiliar.

 

Ora o aluno da pen resolveu colocá-la no seu Magalhães e sacar uns filmezitos. Com tantos géneros de filmes existentes ao cimo da terra, que tipo de filmes é que os putos foram ver? Pois está-se mesmo a ver… filmes de terror!!!

 

As auxiliares em vez de impedirem as crianças de ver aquilo, entusiasmaram-se e ainda acrescentaram mais pormenores e histórias sangrentas. E isto acaba por ser uma bola de neve pois há sempre um miúdo que acrescenta mais um detalhe sanguinário e outra história arrepiante: ele foi gangs de palhaços assassinos, violadores, carros suspeitos à porta da escola, caras retalhadas.

 

Nessa noite, toda a turma sonhou com as histórias aterradoras dos filmes. Não houve ninguém que não tivesse sido premiado por um pesadelo arrepiante. Levaram a noite aos gritos, a acordar assustados e alguns deles nem conseguiram dormir.

 

Na manhã seguinte, choveram telefonemas de pais para a escola, intrigados com o que teria acontecido e procurando resposta para o comportamento dos filhos.

 

Agora digam lá quem devia levar uma descasca valente, os miúdos ou as auxiliares?

 

O Padrinho: Terror À Espreita.

 

Isto de começar um domingo com uma grande moca de anti-histamínico e com uma notícia aterradora a pairar sobre a minha cabeça, tem muito que se lhe diga.

 

But first things first. Naquela semana dos feriados, tive o meu padrinho octogenário (mas em melhor estado do que eu, diga-se em abono da verdade) na minha casa a passar umas “mini-férias”.

Hoje, quando cheguei a casa da minha mãe para almoçar, ela diz-me que “parece que o tio - que é o meu padrinho – quer vir com o N. para cima no dia 15”. Eu e o N. estarrecemos, congelámos e já nem a comida nos caiu lá muito bem.

A nossa mente começou a visualizar as nossas férias estragadas pela estadia do meu padrinho. Pusemos os neurónios a funcionar a full power para arranjar desculpas e subterfúgios, para a eventualidade de recebermos um telefonema do meu padrinho a dizer para o N. o ir buscar porque vinha para Lisboa.

 

Não é por nada, mas aqueles preciosos feriados em que eu estava atafulhada de testes, preparações de festas de final de ano, relatórios de avaliação, etc., mais pareceram dias no inferno. E não fiz nada, o que significou trabalhar a dobrar nas semanas seguintes.

Mas isto nem foi o pior!

 

Imaginem lá terem de madrugar para fazer e dar  pequeno-almoço ao padrinho, pois apesar de eu deixar tudo prontinho em cima da mesa, ele sentava-se na cadeira à espera que lhe fizesse o café com leite e a torrada do pão que ele por acaso até nem gostava… pouco!

 

Depois era a cegada do almoço. Não gostava disto, nem daquilo. E até comia poucochinho, dizia ele. Quando a comida lhe agradava, enfardava bem. Quando eu lhe perguntava se não queria mais, a resposta era sempre “mai nada!” mas a seguir atestava com mais um quilo de fruta. Lol!

 

Jamais me esquecerei do som da prótese dentária: Clac! Clac! Clac! E dos “grunfs” a comer e muito menos da tosse fingida para disfarçar o soltar dos prisioneiros, que é como quem diz dos gases intestinais.

 

Até o meu cão, o Pimentinha, sofreu “ataques de festas” mais conhecidos por pancadas na cabeça e esfreganço de solas de chinelos no pêlo. O pobre bicho até já fugia do meu padrinho, mais conhecido por… Lorde Ganéche! É tão Lorde, tão Lorde que nem se mexe! Humpf!

 

Mas os piores episódios, foram os seguintes: um dia descobri que ele andava a fazer a barba com o meu sabonete de lavar as partes íntimas. Pois…

Dei a extrema-unção ao sabonete, arranjei-lhe um caixãozito e enterrei-o no caixote do lixo mais próximo. Isto permaneceu no segredo dos deuses, ou seja, entre mim e o N., até hoje.

 

Para despedida, resolveu que ao almoço queria carapaus fritos. Corri todos os supermercados à procura e nicles. Resolvi levar sardinhas. Arrisquei mesmo. Ah, e um pepino. Isto era o mais importante de tudo.

Fomos assar as sardinhas e perguntámos-lhe quantas comia. Respondeu que comia algumas 50. Assámos imensas sardinhas. Em suma, comeu 2 ou 3 e nós tivemos que morfar as outras de empreitada. O pepino?! O meu padrinho comeu-o inteiro juntamente com tomate que dava para alguns 50 e uma alfacezinha, que era só para dar cor.

Ufa! Só de me lembrar até já fiquei cansada!

 

Em resumo, a sensação que tenho é de que não fiz mais nada nesses dias senão fazer comida e dar de comer. Argh!

 

Susto de Morte

 

Alguém se aproxima vagarosamente, com pézinhos de lã.

Eu estou a trincar uma bolachinhas, distraidamente, sentada na paragem do autocarro enquanto penso na reunião secante de onde saí e aprecio os carros que passam.

 

Subitamente, oiço uma voz demasiado próxima de mim que me pergunta:

"O autocarro xxx passa no Ikeio?"

 

À medida que processo a informação na minha cabeça e tento desvendar o que é o "Ikeio" (que veio a revelar-se ser o nome daquela loja de mobiliário sueco), viro o meu pescoço para olhar para o meu interlocutor.

 

AAAAAAAAARGH! Apanhei um susto de morte!!! E até estremeci.

Se deparassem com um cenário assim...

 

 

... como reagiriam?

 

Confesso que a minha vontade ao olhar para aquela bocarra cheia de dentes pretos e recheados de ouro, foi a de fugir dali a sete pés ainda assim não levasse uma dentada fatal...

 

Medo na Noite

Acabámos de jantar e o N. foi fumar um cigarro à janela da varanda. Quando regressou para a sala, começámos a ouvir gritos. Alguma coisa de grave se estava a passar.

 

Voltámos à janela para tentar perceber o que se estava a acontecer. Começámos a ouvir tiros. Mais gritos de várias pessoas em desespero. De repente, mais uma sucessão de tiros, seguidos. Vários tipos de armas a disparar pois os sons eram diferentes. Alguns eram autênticos estoiros. Pareciam revólveres, petardos e metralhadoras.

 

Comecei a ficar nervosa e um bocado assustada. Afinal, isto estava a passar-se no bairro de realojamento entre a minha casa e a casa da minha mãe.

Novamente mais tiros… Só pensava que o meu irmão poderia ter ido com o Bóbi à rua e acontecer-lhe alguma coisa. Liguei para a minha mãe a contar o que estava a suceder, para terem cuidado. Mas o meu pai e irmão ainda não tinham regressado a casa do trabalho, o que, de alguma forma, me descansou.

 

Eu e o N. voltámos para a janela. Mais tiros de várias armas. Suspeitámos que estariam a disparar uns contra os outros, pois não pareciam ser disparos da polícia. Aquilo começou mesmo a meter medo. De arrepiar. De tal maneira, que eu e o N. andávamos de cócoras na varanda com medo de que algo nos acertasse, apesar da distância.

 

Finalmente, a gritaria começa a diminuir e a acalmar. Se eu estava assustadíssima e vivo longe, imagino as pessoas que vivem naqueles prédios.

A maioria que constitui este bairro de realojados, é de etnia cigana. Andam sempre às turras uns com os outros. Os prédios, que têm casas óptimas, pois eu tive ocasião de ir visitar um andar, estão todos destruídos…

Esta era uma zona super calma e onde sempre houve pessoas de etnia cigana mas desde que fizeram o bairro tem sido o terror completo. Posso dizer que, para muitas pessoas, há algumas noites de verdadeiro pânico…

 

 

P.S. - Entretanto saiu uma notía sobre o acontecido no jornal "Destak". Check this out...

 

http://www.destak.pt/artigos.php?art=12776

 

Morder… Não Vale!

 

Existe um canídeo morador aqui na zona que tem a mania que é esperto. E raivoso. E odiento.

 

Passo a explicar: o raio do cão é pequeno, ladradiço e implicativo. O meu Bóbi que só quer é brincadeira, um dia destes foi todo lampeiro brincar com o ladradiço. Então não é que o mini-cão ladradiço arreganhou a dentuça ao meu Bóbi?!

 

Ora o Mr. Bóbi que até é grandinho e forte, mostrou-lhe a bela dentuça de volta e mandou-lhe meia dúzia de ladradelas zangadas. De tal forma elucidativas, que o mini-cão partiu a fugir para casa com o rabo entre as pernas.

 

Como o mini-cão é rancoroso, sempre que me vê na rua desata a ladrar-me todo zangado. Mesmo que esteja com a focinheira a espreitar à janela e me veja, faz um grande alarde. 

 

Um dia destes, vinha o mini-cão com a dona, preso pela trela e só não me deu uma trinca na perna porque a dona o travou a tempo.

Hoje, vinha eu do meu descafé, calmamente, descansadinha, quando o raio do mini-cão saiu disparado do prédio onde vive, a toda a velocidade, disposto a dar-me uma trinca.

 

Vi o caso mal parado. Não é que aquela mini-coisa vinha de pêlo todo eriçado e cãs dentuças mal lavadas arreganhadas mesmo pronto a trincar-me as calças? Eu é que lhe disse: Hei! Alto e pára o baile! Se me dás uma trinca levas duas … além disso vou buscar o Bóbi para ter uma conversinha contigo… Pode ser que fiques careca no rabo!

 

E pronto. Parece que convenci o mini-coisa a refrear a vontade e prossegui direitinha a casa a fazer figas para chegar com as calças intactas!

 

Os Pássaros - Remake?!

 

Conhecem aquela obra-prima de Alfred Hitchcock intitulada “Os Pássaros”? Considero este filme, um grande filme de terror. Será que se lembram porquê? Isso mesmo! Tem a ver com a minha fobia a pássaros, nomeadamente pombos que são aqueles com os quais mais me cruzo. Eu detesto “adoro” pássaros!

 

Hoje, a caminho do meu descafé-despertador matinal, encontrei-me no meio de uma revoada de pombos… Parecia mesmo uma das cenas finais do tal filme, em que os pássaros voltam em força à casa. Argh! Que medo!

 

Pensei logo que estariam a fazer um remake do filme, versão tuga. Ainda procurei pela equipa de filmagem mas, não vi ninguém. Por isso, algo de errado se passa… Ou se calhar eu é que tenho alguma coisa que anda a atrair a pombalada toda. Passo a explicar: de há uns dias para cá, sempre que eu ando na rua, os pombos fazem-me voos rasantes e, alguns, até querem chocar comigo. Eu é que me desvio…

 

Após reflexão sobre o assunto, as ilações a que cheguei são as seguintes:

 

1ª Devo ter cara de milho ou de arroz ou de pão… não me parece… (olhem lá pa foto e digam o que acham);

 

2ª A pombalada anda toda míope e a precisar de óculos… hummm… complicada, esta;

 

3ª É um teste ao meu terror amor aos pássaro… possível, possível;

 

4ª Estou um verdadeiro “borracho” e eles querem arrastar-me a asa… argh!... Sem comentários;

 

5ª O sentido de orientação pombalar anda um bocadinho desactualizado…  arranjar GPS “grates” para pombos desorientados;

 

6ªDevem querer ir para o forno pombal para aquecer as patas e querem boleia até lá… Hummm!

 

Estes pombos estão cada vez mais atrevidos. Um dia destes, um deles veio atrás de mim para o café. Até lá dentro entrou. Vasculhou todo o café à procura de migalhas e eu nem me mexi do lugar, foi só para disfarçar a minha presença, não foi por mais nada…

 

E a primavera chegou mesmo, apesar de não darmos por ela. Até os pombos andam apaixonados. Um dia destes assisti a uma cena caricata. Tinha sido um dia de chuva abundante, pelo que as ruas estavam cheias de poças. Se enchem o bandulho de migalheiras, têm de beber água. Ora estava uma pombinha toda deliciada a beber umas gotinhas de água, de biquito na água e de rabinho para o ar, quando um pombo atrevido resolveu fazer-lhe a corte pelas traseiras… Todo ele inchou, fez malabarismos, arrulhou, rodopiou e debicou. A pombinha nem tchum! Ficou ali, sugadita, a beber água. E fez ela muito bem…

 

Concluo daqui, que já nem as pombas se safam. Não acham que isto é mesmo comportamento à gajo macho?!?!? Onde já vi isto?!?!?

 

Nódulo na Mama

Foi detectado um nódulo na mama a uma prima minha. Todos os anos fazia os exames de despiste e vigilância aconselhados a partir dos 35 anos. Até agora sem sobressaltos, tudo sempre normal. Mas desta vez foi diferente. Detectou-se um nódulo que o médico não gostou, tendo de imediato mandado fazer uma biopsia.

 

Ainda não fiz nenhuma biopsia mas sei que o nervosismo é grande. Talvez não tanto pelo exame em si mas pelo resultado que pode revelar. Todos sabemos que quando nos mandam fazer biopsias é para despiste ou confirmação de algo. Desejavelmente que o resultado seja de algo bom, benigno.

 

Já passei, por duas vezes, pelos nervos e angústia de ter nódulos no peito. Só eu sei o quanto foi difícil até descobrir o que se passava.

O primeiro surgiu m que fiz estágio profissional. Foi um ano terrível, não só de trabalho e chatices mas também por vários problemas de saúde, sendo os mais graves uma suspeita de meningite – foi um ano muito prolífico em meningites – e este nódulo no peito.

Nunca tinha detectado nada semelhante. Não se percebia se era no músculo ou se era na mama propriamente dita. Fui fazer mamografias e ecografias de urgência e nem vos digo o tamanho da preocupação que trazia comigo.

 

Enquanto não tive um diagnóstico preciso e conclusivo, não consegui tranquilizar-me. Na realidade, não tinha nada na mama. Estava “limpinha” (palavras da médica) e, provavelmente, alguma coisa de origem hormonal e que depois desapareceu. Finalmente, acalmei a minha preocupação e afastei as nuvens negras de ser algo pior.

 

Passados alguns anos, surgiu-me, de novo, outro nódulo na outra mama. Parecia um “dejà vu”. Mais nervos e mais preocupação e mais dúvidas e pensamentos obscuros. Só quem passa por isto é que sabe avaliar. Novas ecografias e mamografias e, mais uma vez, não era nada de especial. Provavelmente, mais uma questão hormonal. Os diagnósticos foram sempre favoráveis.

 

Se eu com diagnósticos despreocupantes passei por crises de nervos arrasadoras, imagino a quem for diagnosticado algo diferente.

O importante, por mais medo que se tenha, é não baixar os braços e agir. Nestas situações não se pode estar à espera. O tempo urge e todos os minutos contam.

 

Estou a torcer, fervorosamente, para que as coisas corram todas bem, independentemente do que tiver de acontecer. Há-de correr tudo bem. Estou convicta disso.

Here Comes The Rain

                “The rain in Spain stays mainly in the plain”

                                                           (My Fair Lady)

 

Mas este cantinho à beira-mar plantado não é Espanha e a chuva não cai apenas na planície!

 

Após uma noitada de chuva torrencial e trovoada forte, eis que a capital acorda surpreendida com os estragos causados pela intempérie. E que continuou pelo início da manhã.

 

Desde as três da manhã que deixei de conseguir dormir. Primeiro por causa da trovoada fortíssima, depois porque eu tenho “pavor” de relâmpagos e trovoadas e ainda pelo barulho da cadência da chuva intensa. Os clarões assustavam-me e a chuva fazia-me pensar no pior.

O pobre Bóbi, que tal como eu morre de medo de trovoadas, veio aninhar-se em cima da minha cama, mais exactamente no meio das minhas pernas, fazendo com que eu ainda ficasse mais desconfortável. O pobre bicho estremecia e dava um salto cada vez que caia uma trovoada. E eu a seguir fazia-lhe uma festinha para o acalmar.

 

De manhã, quando me levantei, apercebi-me logo dos estragos que a noite tinha ocultado mas o dia revelou. A minha zona tinha vários locais alagados. Havia escolas fechadas, sítios por onde não se podia passar, trânsito caótico e lojas com alguns prejuízos, embora não tenham sido dos piores.

Tinha de ir ao banco, por isso, vesti-me e equipei-me contra a chuva. Comecei a descer a minha rua qyue parecia um rio… Já é hábito. Custei a atravessar para o outro lado do passeio e, no entanto, não estava no pico do dilúvio.

 

O cenário revelou-se bastante complicado nas zonas próximas da minha cidade, tendo, inclusivamente, um carro caído ao rio com duas mulheres. Aquela zona é crítica.

A zona do meu colégio também sofreu alguns estragos. Havia desabamentos de terras e de um muro de uma vivenda na zona das plantas.

Receei que o colégio tivesse ficado inundado pois apesar de ficar numa zona alta, aquela parte faz um baixio. Havia muita água mas não o suficiente para fazer estragos. Ainda bem!

 

Amanhã vamos ver o que nos está reservado. Espero que não sejam chuvadas deste calibre!

Assalto À Mão Armada

 

A rua da minha mãe sempre foi tranquila, movimentada e com gente a passar. Pessoas que ali vivem e pessoas que ali passam ocasionalmente. Jovens e crianças que vão para as escolas enfeitam as ruas diariamente.

 

Toda a vida houve brincadeiras no canto abrigado e convidativo debaixo das janelas da minha mãe. Eram tardes de Macaquinho do chinês, Mamã dá licença, rodas e jogos de bola que partiam os vidros da minha vizinha S. e os da minha mãe. E o encontro marcado pelos rapazes, depois do café fechar, para desabafarem as suas mágoas e falarem sobre as suas conquistas amorosas madrugada fora.

 

Anos mais tarde, resolveram “roubar-nos” um bocado do nosso cantinho, o espaço de brincadeiras preferido: colocaram uma cabine telefónica no meio como se de um monumento importante se tratasse. Revolta geral da miudagem. Mas como as crianças têm uma mente engenhosa, rapidamente aquilo foi incluído nas suas brincadeiras.

 

A rua tem meia dúzia de lojas que, ainda hoje, se mantêm. Mudanças de ramo, mudanças de dono mas três delas sempre se mantiveram fiéis ao destino traçado: o café, a padaria e o talho.

Havia ainda uma peixaria que acabou por fechar. Mais recentemente, voltou a abrir, desta vez, como florista.

 

Há poucos anos, fizeram um bairro de realojamento perto da rua da minha mãe. Escusado será dizer que o nível de segurança aumentou drasticamente – só o carro do meu irmão foi assaltado duas vezes e o carro de um vizinho foi pontapeado por prazer até ficar irreconhecível - , as ruas transformaram-se em lixeiras em ponto pequeno e a passagem de sujeitos de ar suspeito é constante (para ir comprar droga). O bairro fica coladinho à porta de uma escola secundária. Depois não se queixem da droga nas escolas!

 

Soube hoje que a Dona F., a florista, foi assaltada no sábado. À mão armada. Três indivíduos de raça negra invadiram o seu parco espaço, fecharam-lhe a porta e depositaram uma arma no balcão. Ela estava acompanhada com outra senhora e ambas tentaram resistir. Mas perante uma arma apontada a nós, a nossa resistência rapidamente se dissolve. Levaram-lhe o dinheiro todo e tabaco.

 

O mais gritante é que o café é no outro lado da rua e que, agora, tem sempre gente à porta a fumar. A falta de sorte foi tanta que, nessa altura estava tudo enfiado no café a ver o jogo de futebol! Ninguém deu por nada.

Da janela da minha mãe vê-se perfeitamente a loja mas como era de noite, as persianas estavam descidas. Era impossível apercebermo-nos de alguma coisa.

No entanto, fiquei muitíssimo triste por não ter podido ajudar. Sinto que poderia ter feito algo. Mas nem sei como…